sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

AS FONTES

         A implantação da aldeia não foi alheia à riqueza das águas, existentes em quase todo o espaço, à qualidade dos terrenos e à cobertura vegetal, especialmente na serra, com os matos, arbustos e árvores utilizados como fontes de energia, nas lareiras e nos fornos, como materiais de construção de habitações e de alfaias agrícolas, e na produção de estrumes nas estrumeiras e na cama dos animais.
         O Alcaide é uma povoação da Beira Interior, implantada na vertente norte da serra da Gardunha, na qual as actividades dominantes foram, até há poucas décadas, exclusivamente agrícolas, facto que transparece na forma de ocupação do espaço, cujo ordenamento reflecte as aspirações económicas e sociais da população e da sua capacidade de se adaptar ao meio físico, segundo as necessidades e os desejos. É da interacção entre a sociedade, a terra e a história que resulta uma forma característica de arranjo espacial, quer sob o ponto de vista arquitectónico da habitação, quer na formação da paisagem rural humanizada.
         O núcleo inicial da povoação cresceu, em anfiteatro,  tendo como ponto de irradiação a Fonte do Lugar, a mais antiga fonte da freguesia.
         A Fonte do Lugar, ou seja, a fonte do lugar do Alcaide, que abastecia a população, é uma fonte de mergulho ou de chafurdo, de construção granítica, cuja água de dois nascentes, com características diferentes, que os alcaidenses diziam ser uma boa e a outra ensossa, era acumulada num tanque coberto, com uma abertura em arco, através da qual as pessoas mergulhavam as vasilhas na água (daí a designação de fonte de mergulho), transportando o líquido para o consumo doméstico, facto que ainda se verificava nos anos quarenta do século XX.
         Por motivos higiénicos, a abertura da primitiva Fonte do Lugar, que se encontra soterrada, foi fechada em 1946, sendo a água canalizada para uma nova fonte, de águas correntes, a cerca de três dezenas de metros para poente da fonte primitiva.
        A toponímia de uma dada área facilita a investigação da ocupação e valorização humana de um território, pois, pode fornecer elementos preciosos sobre os modos de desenvolvimento do povoamento e das fases de expansão populacional. Neste caso, a nomenclatura Fonte do Lugar, a Fonte do Loguer, na linguagem dos mais idosos, ainda há poucos anos, tem uma relação imediata com o lugar do Alcaide, ou seja a fonte do lugar do Alcaide, antes de ser paróquia, freguesia, aldeia e vila. À rua mais próxima foi dado o nome de Rua da Fonte do Lugar, perpetuando a fonte na memória da povoação, dela bifurcando uma travessa com o mesmo nome.
         Sendo de importância vital a disponibilidade de água para as populações, verifica-se uma grande frequência de topónimos referidos à água, dispondo de termos para indicar elementos hidrográficos, como fonte, utilizado como sinónimo de nascente, o que acontece com a Fonte do Lugar do Alcaide, cujo chafariz de granito foi erguido sobre as nascentes, além de Fonte da Barroca, Fonte do Vale de Baixo, Chafariz do Souto ou Fonte Seca, Fonte das Lajes, estas com chafariz construído em granito aparelhado, Fonte das Pocinhas, Fonte Seixo, Fonte do Fló e Fonte de São João, etc..Na Fonte de São João, situada na Rasinha, a sul da povoação, e na Fonte do Vale de Cima, esta a norte da Fonte do Vale de Baixo, ambas propriedades de particulares, se abasteceu parte da população até à construção dos chafarizes da Praça e do Adro. A Fonte do Vale de Cima deixou de ter água corrente desde os anos trinta do século passado, ficando apenas um poço.
         Os chafarizes da Praça e do Adro, inaugurados em 10 de Fevereiro de 1915, foram mandados construir por JOAQUIM GIL PINHEIRO (Pinheirinho), que custeou também a exploração e a canalização da água para os chafarizes.
         O chafariz da Praça, com duas bicas, é encimado por um busto de bronze do Pinheirinho, que ele próprio mandou fazer. Neste chafariz, até meados do século XX, estava um copo, preso com uma corrente, para os passantes se dessedentarem. Até meados do século XX, o busto do Pinheirinho teve o rosto voltado para poente, passando, depois, a estar voltado para nascente.
         Os chafarizes da Praça e do Adro tiveram água corrente até aos anos setenta do século XX, com escorrências dessas águas dirigidas para quintais próximos, para rega, quando necessário, cujos proprietários a compravam. Depois dessa data, com a maior parte das habitações com água canalizada da rede pública e com a diminuição dos caudais dos nascentes, foram colocadas torneiras para serem evitados desperdícios de água.
Como construção histórica, que é memória de um passado recente, em que uma grande parte das famílias possuía animais de trabalho e de transporte, bois, cavalos e burros, ainda existe o Tanque dos Burros, de granito, mandado construir por Joaquim Gil Pinheiro, para onde escorriam as águas do Chafariz da Praça, e onde os animais eram levados a beber. Este tanque, localizado actualmente junto da bifurcação da Rua de Santo António com a estrada para o Fundão, já teve mais duas colocações: uma no lado oposto ao actual, junto da daquela estrada, e outro junto da bifurcação da Rua de Santo António com a Rua das Carvalhas.
         Um alcaidense, João Pinto Ribeiro, emigrado na Argentina, escreveu uma composição relativa às fontes da sua terra, que era cantada por ranchos, em dias festivos, como pelo São João e pelo Entrudo ou em realizações cénicas.


AS FONTES

A Fonte do Vale, senhores,
Sítio de velhos amores,
Tem o mágico condão
De alegar a nossa alma,
De nos dar sólida calma
E falar ao coração.

Venham ver as Fontainhas,
Venham a sede matar,
Venham novas e velhinhas,
Todas lá têm lugar!
A da Barroca é bela,
A do Vale é singular,
A das Lajes é singela,
Pitoresca a do Lugar.

A do Lugar, pitoresca,
Com a sua água fresca
Chama gente aos milhões,
Chama o doente e o são,
E fica-se contente, então,
Quando fala aos corações!

Venham ver as Fontainhas,
Venham a sede matar,
Venham novas e velhinhas,
Todas lá têm lugar!
A da Barroca é bela,
A do Vale é singular,
A das Lajes é singela,
Pitoresca a do Lugar!


 

 
Fonte do Lugar, de mergulho ou de chafurdo,  soterrada.

Fonte do Lugar, de mergulho ou de chafurdo, soterrada.

 Fonte do Vale de Baixo

Fonte da Barroca.

Fonte das Lajes

Chafariz da Praça.

Fonte do Lugar de água corrente, canalizada da antiga Fonte do Lugar. 


Chafariz do Souto ou Fonte Seca

Chafariz do Adro.

Chafariz da Senhora da Oliveira.

Chafariz do São Francisco.

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